A 29ª edição da Intermodal South America, que ocorreu entre os últimos dias 22 e 24 de abril, consolidou-se como o maior evento de logística, transporte de cargas e comércio exterior da América Latina.
Reunindo cerca de 50 mil visitantes e mais de 500 marcas expositoras, o encontro – que superou em 15% o público de 2024 – refletiu o cenário de plena transformação digital, cultural e de processos na cadeia de distribuição nacional, ao mesmo tempo em que abriu uma oportunidade única para que empresas e profissionais se aproximassem das principais tendências de inovação que estão revolucionando o mercado de supply chain em todo o mundo.
Tendências essas que, por sua vez, respondem a muitos dos desafios estruturais de um país complexo e de dimensões continentais como o Brasil e a pressão do mercado por mais eficiência, produtividade e experiências positivas de consumo.
Dentro desse contexto, o que se pode observar com mais ênfase é que o futuro da logística, como se viu nos corredores do Distrito Anhembi, passa definitivamente por mais inovação e integração de soluções que redesenham as operações a partir de tendências emergentes que se consolidam como a inteligência artificial e suas diferentes aplicações, visibilidade 3D e tecnologias de rastreabilidade como a RFID (Radio Frequency Identification ou Identificação por Radiofrequência, em tradução livre).
Essa perspectiva condiz com projeções recentes: de acordo com dados da consultoria Fortune Business Insights, os investimentos em logística digital devem alcançar mais de US$ 37 bilhões em todo o mundo ainda este ano, crescendo a um ritmo expressivo de 18,1% até 2032. Esses números não deixam dúvidas: empresas que não acelerarem seus investimentos em transformação digital perderão competitividade diante do novo cenário logístico global, que exige controle em tempo real, rastreabilidade, produtividade, flexibilidade e capacidade analítica em nível operacional.
Sobre o fator produtividade, aliás, a pesquisa “How Possible Happens” que foi realizada pela Infor com 3,6 mil organizações em 15 países, já mostrou que 74% das companhias brasileiras esperam aumentar sua produtividade em mais de 20% nos próximos 3 a 5 anos.
Neste artigo, reúno alguns insights com base nos debates e tendências mais impactantes que foram analisadas ao longo dos três dias de Intermodal que podem apoiar empresas no posicionamento de suas áreas logísticas como uma fonte contínua de valor.
As dores estruturais da logística no Brasil
Ainda que a corrida pela inovação comece a ganhar corpo no Brasil, o setor logístico do país carrega, indubitavelmente, um conjunto persistente de entraves.
Durante a Intermodal, executivos e especialistas do setor apontaram gargalos que revelam um gap significativo entre a complexidade das demandas atuais, os problemas estruturais do país e a infraestrutura de sistemas em descompasso com essas necessidades e adotados por um número ainda considerável de empresas.
É um quadro que descortina uma questão importante: os investimentos estão avançando, mas a maturidade tecnológica ainda é baixa no mercado.
Nesse sentido, a rastreabilidade dentro dos armazéns segue como uma das principais lacunas das organizações. A ausência de visibilidade em tempo real sobre a localização dos produtos compromete, por exemplo, a assertividade dos inventários e gera perdas financeiras diretas, sobretudo em centros de distribuição que ainda operam com controles manuais ou soluções com baixa customização.
Essa “dor” dialoga diretamente com a rigidez e falta de integração dos sistemas utilizados em muitas companhias. Soluções engessadas, com baixa capacidade de personalização e integração, elevam os custos operacionais e tornam inviável a adaptação a diferentes modelos de negócios – especialmente em operações que envolvem múltiplos canais, como e-commerce e varejo físico.
A produtividade também aparece como ponto crítico. Empresas relatam dificuldade em obter relatórios de desempenho intralogístico em tempo real, impedindo uma gestão real time e decisões baseadas em dados atualizados continuamente. A baixa usabilidade de muitos sistemas, distante das experiências contemporâneas de UX, compromete o engajamento das equipes operacionais e reduz o potencial de ganhos que se abrem com a digitalização.
Há ainda desafios históricos de integração entre plataformas, como Order Management, ERP e WMS, agravados por falhas em implementações passadas e pela presença de soluções on premise que encarecem atualizações. Nesse cenário, a falta de indicadores claros e de um ROI estruturado trava investimentos futuros e mina a confiança dos gestores em iniciativas digitais.
Mas o que a Intermodal também mostrou é que a resposta para esse copo meio vazio já existe: seja a partir de soluções inteligentes que agregam recursos de visibilidade 3D, algoritmos de IA e uso de big data para potencializar a gestão das cadeias de distribuição e de armazéns, seja por meio de modelos mais avançados de WMS flexíveis, na nuvem e estruturados de acordo com as necessidades específicas de setores, áreas e indústrias.
As tendências que abrem portas para o futuro
Assim, em resposta a essas lacunas do mercado, a 29ª edição da Intermodal South America destacou um leque estratégico de tendências que começam a se fortalecer como caminhos para uma logística mais eficiente, transparente e inteligente.
A inteligência artificial aparece como um dos vetores centrais dessa transformação. Empresas buscam formas de integrar IA a diferentes plataformas, utilizando algoritmos para otimizar a gestão de armazéns, prever demandas, reduzir rupturas e elevar o desempenho das equipes.
E hoje, o mercado já dispõe de plataformas com recursos de inteligência artificial que podem ser explorados para a construção de relatórios mais estratégicos, controle de produtividade e análise preditiva, permitindo decisões mais rápidas e embasadas a partir de números atualizados em tempo real.
A tecnologia RFID também ganha destaque na lógica real time, oferecendo um caminho para a demanda por mais rastreabilidade e acuracidade dos inventários e gestão de estoques. E isso porque as soluções de RFID permitem o controle contínuo da movimentação de itens, reduzindo drasticamente o tempo necessário para inventários e aumentando a confiabilidade dos dados.
Soluções 3D com visualização de armazéns, mapas de calor e relatórios gráficos por operador também despontam no mercado. Com interfaces intuitivas e recursos visuais imersivos, estes sistemas facilitam a análise de produtividade e o diagnóstico de gargalos, abrindo espaço para um novo patamar de inteligência operacional.
Outro movimento observado é o avanço de automações customizadas e a busca por flexibilidade nas plataformas de WMS. Essa tendência se comunica, por sua vez, com o crescente interesse em internalização de operações e aumento de produtividade – sem o aumento de custos com uma mão de obra cada vez mais escassa no setor logístico e que deve se agravar com o fim do bônus demográfico e inversão da pirâmide etária no Brasil.
Além disso, há uma atenção renovada sobre a construção de KPIs operacionais estruturados, com foco em indicadores de separação, atendimento de pedidos e desempenho de acordo com os diferentes modelos de negócio logísticos. Nesse cenário, a gestão orientada por dados passa a ser um trunfo de competitividade – e, quiçá, de sobrevivência no mercado.
Por fim, o debate sobre usabilidade e experiência do usuário nos sistemas logísticos ganha espaço. Em um contexto no qual o capital humano é direcionado para atividades estratégicas, plataformas que entregam uma jornada intuitiva e responsiva favorecem o engajamento e o aumento de capacidade dos colaboradores.
Inovação como parte da cultura e dos pilares do negócio
Se pudesse resumir em um recado os insights da Intermodal 2025, diria que o evento deixou mais do que evidente que a tecnologia não pode ser vista somente como um investimento pouco direcionado (e muito menos como custo). Ela precisa ser compreendida como um motor para os negócios e parte da cultura organizacional.
O futuro da logística, nesse sentido, tende a ser desenhado por organizações capazes de se orientar por dados, integrar recursos emergentes e soluções que se comunicam, apoiadas por colaboradores treinados e adaptados a um ecossistema de experimentação, colaboração e de mais produtividade.
Com esse olhar, as empresas do país poderão não apenas responder aos gargalos estruturais do país, mas liderar um mercado de transformações incessantes a cada minuto.